O texto abaixo foi publicado pela primeira vez em 03 de Dezembro de 2008, imediatamente replicado em jornais impressos, sites e blogs de diversas localidades. Após reler, suas poucas linhas, no afã de nova inspiração, o reencontramos muito atual, portador de uma forte mensagem crítica sobre a morte da ideologia político partidária. Nesses momentos pré-eleitorais, refletir sobre as estratégias e os motivos que sustentam as coligações parece ser necessário, para que os leitores do Plantão Brasil tenham a oportunidade de analisá-lo segue sua transcrição na integra.
Por Marcos Vinícius S. dos Anjos – mvanjos@oi.com.br
[…] esquerda e direita se confundem no valor da propina, no tráfico de influência, na distância dos interesses das comunidades e, apenas divergem na cor de suas agremiações. Onde está, por exemplo, a ideologia de muitos dos que se dizem vermelhos? - De certo, bem longe dos ideais revolucionários ou de avanços para a classe “proletária”[…]
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A grosso modo, pode-se colocar que a idéia é uma filha pródiga da ideologia, uma extensão não muito rara, por dedução ou simples percepção, um “achado”, plano, opinião, proposição etc., que materializa a coerência e a lógica de uma forma de pensar. Não se pretende aqui agredir “o pai dos burros” (O Dicionário), mas analisar, à luz da noção de política local, como o senso comum aliado à ignorância oportunista pode transformar essa filha em bastarda, que nega a sua própria origem paternal.
Recorrendo a qualquer bom dicionário, ideologia significará as bases de conhecimento para a formação e origem das idéias. Pode-se ir mais longe, chamar de doutrina e crenças de uma classe, de uma época, de uma sociedade ou de um indivíduo. As ideologias podem sustentar as vontades. Quem nunca ouviu: “não vou fazer aos outros, o que não gostaria que fizessem comigo”, trata-se de uma ideologia de vida, como “a de fazer o bem sem olhar a quem”. Elas devem estar no centro das lutas, causas individuais e sociais, mantendo a lógica e a coerência das pessoas.
Não se trata de apologia ao determinismo, mesmo a noção de dogma evolui, traz avanços na compreensão do homem, de sua sociedade e das necessidades de interação com meio. Portanto, admitir que ocorram mudanças não significa que as ideologias não sirvam para perpassar os tempos. Elas se transformam ao se relacionarem com o mundo percebido em cada época, suas conquistas, suas tragédias, sempre legando influências a forma de pensar e agir das pessoas.
No âmbito da manifestação ideológica pode-se destacar as imposições consumistas atuais, a alienação de valores e crenças regionais através da importação de estereótipos, quem cumprem a missão de estender vias de mercado das economias mais desenvolvidas. Não é objetivo deste texto, abordar as estruturas das ideologias macro, pois estas se prestam a outros interesses, para o desalento de alguns valores brasileiros, mas sim, questionar a incapacidade de se promover ações para superação de debilidades locais, entrave nitidamente ancorada na irracionalidade das gestões públicas, e na heterogeneidade de idéias estéreis, frutos da pobreza de ideologias que sustentem a promoção do bem comum.
Chega-se então a política, nesta esquerda e direita se confundem no valor da propina, no tráfico de influência, na distância dos interesses das comunidades e, apenas divergem na cor de suas agremiações. Onde está, por exemplo, a ideologia de muitos dos que se dizem vermelhos? - De certo, bem longe dos ideais revolucionários ou de avanços para a classe “proletária”, pois na maioria dos casos, viraram simples extensões das vísceras do poder, rifando as suas raízes ideológicas por benefícios personalistas.
Socialismo, liberalismo aos olhos dos mais estudiosos possuem grandes diferenças, mas nas práticas dos mais oportunistas, travestidos de homens públicos, responsáveis e candidatos, não devem passar de chavões pronunciados ao sabor do preço da prostituição política. Infelizmente, não se pode fazer referência a uma localidade em especial, pois esse demérito é quase uma generalidade nos pleitos eleitorais da democracia brasileira. De norte a sul é possível perguntar, onde está à coerência, a preservação ou identificação da ideologia dos partidos, seja ela qual for? Já no início dos anos noventa o poeta Cazuza reclamava: “... ideologia, eu quero uma pra viver!”. Parece que na política, a ideologia do momento é simplesmente não ter ideologia.
Compreender a idéia como isolada na política, fruto do acaso, não é tarefa fácil. Interesses, articulações, negociações e cumplicidade movem as idéias no âmbito da atuação político-partidária. Dessa forma, as idéias ficam mais submissas às manifestações de ocasião do que às raízes ideológicas, e a política presa a ações de curto prazo, onde o horizonte se torna as eleições seguintes. Como se diz por ai que “o eleitor no Brasil não tem memória”, para que ideologia se a única coerência é a do compromisso com a próxima eleição?
Continua-se refém do velho desafio: produzir o nível de organização suficiente para deflagrar um processo de desenvolvimento, mas com idéias estanques e de curto prazo, meramente eleitoreiras e aparelhistas, distantes de ideologias condizentes com o bem comum, essa sociedade conseguirá superar suas debilidades?
Por fim, quando se fazem as negociações e composições em vias eleitorais, os eleitores devem ficar atentos não só aos portadores de ideologias dissonantes do bem comum, mas também, aos que se mostram traidores de suas ideologias ou desprovidos de ideologia alguma. Pois, não há história de prática política órfã, nem idéias filhas apenas do momento, as condutas são impregnadas de vontades e de compromissos que, muitas vezes, fogem a percepção dos eleitores. As idéias não são alheias às ideologias, elas se tornam, na prática político-partidária, por conveniências de alguns e, assim, viram bastardas ou passam a renegar sua própria paternidade ideológica.
Marcos Vinícius S. dos Anjos mvanjos@oi.com.br é Professor no Departamento de Ciências Administrativas e Contábeis – DCAC da Universidade Estadual de Santa Cruz - UESC










Caro autor, qual será a ideologia do Partido dos Trabalhadores - PT hoje? Só imagino que seja: “agora é a nossa vez”, tiveram a oportunidade de mudar o país, mas se perderam em meio aos percalços do poder. Constituíram a sua elite direitistas travestidos de esquerda festiva e passaram a reproduzir o velho sistema dominante. Não tinha ideologia alguma só sede do “poder pelo poder”.
ResponderExcluirCarlos Alberto Aguilar – Estudante de Ciências Sociais São Paulo