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9 de janeiro de 2012

SEXTA MAIOR ECONOMIA DO MUNDO - E DAÍ?

Marcos Vinícius S. dos Anjos – mvanjos@oi.com.br – Professor do DCAC da Universidade Estadual de Santa Cruz

“…este surto de crescimento econômico experimentado recentemente pelo Brasil, têm pouca ou nenhuma correlação com as políticas econômicas do Governo adotadas nos últimos anos.”

Foto Marcos As linhas a seguir tentam destrinchar e provocar alguma reflexão sobre a mudança recente na lista das maiores economias do mundo, em que o PIB Brasileiro ultrapassou o da Grã-Bretanha. Buscou-se com o texto, desmistificar algumas distorções sobre o significado deste episódio, bastante alardeado pela grande imprensa e, mostrar como as implicações da recente crise econômica mundial interferiram neste contexto.

Em uma análise fria, desprovida do aparelhamento ideológico e da ufania política, logo se perceberá que tal fato é de pouca ou nenhuma relevância para a Economia Brasileira atual, pois seu crescimento no ano de 2011 ficou abaixo do esperado. O que de fato mereceria destaque nesse episódio é o encolhimento da condição Britânica, mais um reflexo do desmoronamento da economia européia e suas conseqüências na retração do consumo, na estagnação e até recessão interna. Portanto, não foi o Brasil que conquistou maior evidência, mas, a Inglaterra que perdeu expressão.

O que se deve questionar agora é como o Brasil, territorialmente maior e muito mais favorecido pela natureza em recursos, conseguia ter um desempenho econômico inferior por tanto tempo? A Inglaterra começou a perder força no final do século XIX, já no início do século XX seria ultrapassado pela economia dos EUA, afastando-se por definitivo da posição hegemônica na expansão econômica mundial, que conquistara através de suas revoluções industriais.

Mas mesmo perdendo uma posição no ranking os ingleses têm muitos mais motivos para se orgulhar de sua economia, do que os brasileiros têm dessa ascensão na lista. O PIB per capta da Grã-Bretanha é quatro vezes maior que o do Brasil. Um Britânico médio ganha quatro vezes mais que o brasileiro médio, seu salário mínimo também é, cerca de quatro vezes maior em comparação ao do Brasil. Seu sistema de saúde é modelo para o mundo, sua educação, ao lado da França e Alemanha, é das mais reconhecidas em eficiência e qualidade. Sua infra-estrutura urbana já há muito superior, ao contrário do Brasil, continua sendo alvo de crescentes investimentos em saneamento, transportes e urbanismo.

Essa aparente conquista brasileira precisa ser de fato analisada a partir do seu contexto. Ao contrário do que muitos pensam e defendem fervorosamente, este surto de crescimento econômico experimentado recentemente pelo Brasil, têm pouca ou nenhuma correlação com as políticas econômicas do Governo adotadas nos últimos anos. Ele é reflexo de fatores muito mais circunstanciais, de conjuntura internacional, do que de algum esforço direcionado para estimular e controlar a economia.

Há uma significativa mudança em curso na ordem capitalista mundial, a reorientação de capitais realizada nos anos noventa, em pleno auge neoliberal, resultou na proliferação dos processos de colisão, realinhamento, fusões e aquisições entre empresas, proporcionando o maior nível de concentração de capitais que já se viu. Atualmente, não mais que oitenta grupos e conglomerados controlam praticamente todos os fluxos monetários do planeta, seja no financiamento e circulação da produção ou na especulação financeira.

Esse novo padrão de geração e acumulação de riquezas, muito estruturado na volatilidade de capitais e na especulação financeira, que emergiu no final dos anos noventa, logo se deparou com a frágil iniciativa dos Estados na formação dos blocos regionais. Foi assim com a conturbada unificação européia e a criação do “Euro”, concebido para ser uma moeda hegemônica em alternativa ao dólar, herdou muitas tensões internas e diversos desequilíbrios regionais, cuja superação representava o seu maior desafio.

Os controladores dos grandes capitais concentrados perceberam, já no meado dos anos noventa, o cenário futuro conturbado nas economias dos países centrais (tidos por desenvolvidos). Além da inflexão demográfica nas taxas de crescimento populacional, tornando-se negativa para vários países, o alto nível de endividamento dos governos e das famílias trouxe muitas ameaças à estabilidade e à liquidez dos empreendimentos, alterando o comportamento capitalista, obrigando a reorientação de investimento para novos territórios, cuja perspectiva demográfica e o nível de comprometimento dos ativos, pudessem continuar alimentando as taxas de lucros crescentes desses empresários.

É neste contexto, que Brasil, China, Rússia e Índia se tornaram eleitos (convidados), dotados de muitos recursos naturais, com grandes mercados internos em potencial e margem atrativa de endividamento para expansão da economia, passaram a oferecer condições mais convenientes a investidores e empresários. Ao iniciarem um processo de migração dos capitais, os grandes grupos e conglomerados foram enfraquecendo os setores mais endividados das economias dos países desenvolvidos, foi assim com a crise do subprime, no setor imobiliário dos EUA em 2008.

O decréscimo da economia e o paulatino encolhimento da renda levavam as famílias americanas, cativas por um alto padrão de consumo, a transformarem seus imóveis residenciais e bens de patrimônio em bens de renda corrente, lastreando infinitos graus de hipotecas muito superiores aos valores reais dos imóveis, para obter mais crédito e sustentar suas necessidades de consumo presente. Esse castelo de papéis hipotecários logo ruiria, dada a impossibilidade de recuperação dos financiamentos feitos às famílias americanas e da discrepância constatada nos valores de mercado dos imóveis; instalou-se então a ameaça velada da falência de bancos, empresas ficaram sem crédito e aproximou-se uma crise de iliquidez, obrigando o Governo americano a conceder ajuda financeira às diversas empresas envolvidas.

Estancada temporariamente a crise de 2008, seus sintomas continuam e agora alguns países europeus muito endividados, vêem os capitais que alimentavam suas dívidas migrarem para economias mais sólidas e atrativas, causando imediata queda no nível de investimento, desemprego e necessidade de elevação das taxas de juros, porém com pouca eficácia na atração de novos capitais, pois os riscos assumidos tornam as operações extremamente ameaçadoras aos investidores. Esse é o caso de Portugal, Irlanda, Grécia, Espanha e agora Itália, países com nível de endividamento muito superior aos seus PIB´s, que estão sendo obrigados a ajustes internos rigorosos e impopulares de austeridade e equilíbrio fiscal para acessar os parcos recursos da União Européia.

Dentre os chamados “países emergentes”, a China por suas dimensões e recursos, partiu na frente consolidando um vigoroso processo de crescimento iniciado desde os anos sessenta, tornando-se o motor atual da economia do mundo. Somente nos últimos oito anos cerca de quatrocentos milhões de pessoas deixaram as zonas rurais e migraram para as cidades, ocupando postos de trabalho criados por um rápido processo de industrialização. Esse movimento na China, associado a outras necessidades de matérias-primas, desequilibrou o mercado mundial de commodities, produzindo um crescimento de demanda jamais experimentado pela humanidade. Nesse vácuo, o Brasil se encaixou como um dos maiores parceiros comerciais e, grande exportador de commodities para a China. Quanto tempo essa bonança vai durar para o Brasil, não se sabe ao certo, pois à China vêm investindo muito em bens similares aos importados do Brasil no Sul da África.

Portanto, esse ranking voltará a se alterar várias vezes nos próximos anos, pois o que está em crise não são só as economias dos países da Europa e os EUA, mas o padrão de geração, reprodução e acumulação de riquezas consolidado por todo o século XX, saturado, tanto pela decadência nos mercados ditos desenvolvidos, quanto pela exacerbação dos ganhos financeiros nos mercados fictícios, obtidos pelas economias desenvolvidas. A falta de regulação e o distanciamento da realidade fizeram das formas de enriquecimento, descoladas da produção de bens e serviços, o modismo do século XX. Agora, na fase de desaceleração, a ameaça de iliquidez e a falta de confiança elevam os riscos e as taxas de juros, tornando as economias em crise hostis aos capitais concentrados.

Com as economias dos países europeus definhando, o Brasil poderá voltar a ascender na lista das maiores economias do mundo, porém, para aproveitar esse momento favorável, deve fazer o seu dever de casa: fortalecer a competitividade da indústria nacional, elevar o nível de qualificação da mão-de-obra, resolver os seus problemas de infra-estrutura, começar a alternar a flexibilização do crédito com aumento real de renda para elevação do poder aquisitivo de forma gradativa, mantendo a inflação abaixo da meta, fazer a reforma tributária e começar a encarar de cabeça erguida seus crônicos problemas sociais, priorizando saúde e educação, através de políticas públicas sérias, estruturada por amplas parcerias com a sociedade.

Quem sabe assim, ao contrário dos dias atuais, os brasileiros passarão a ter motivos para se orgulhar de sua posição na lista das grandes economias do mundo!

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